Monteiro (Dr. João António) 1Nascimento e magistério
Monteiro (Dr. João António)
Biografia de João António Monteiro (1769–1834), mineralogista natural do Funchal e professor em Coimbra que partiu de Portugal em 1804 numa viagem científica e alcançou reputação europeia pelos seus trabalhos de cristalografia e mineralogia.
1Nascimento e magistério
Apenas sabemos de dois madeirenses que notavelmente se tivessem distinguido na cultura das ciências naturais– José Vicente Barbosa du Bocage (vol. I, pag. 125) como zoólogo e João António Monteiro como mineralogista – os quais nos deixaram varias obras, que abonam os seus profundos conhecimentos nestes ramos do saber humano.
João António Monteiro, que vários autores estrangeiros chamam o sábio português, nasceu nesta cidade a 31 de Maio de 1769, sendo filho do rico negociante Pedro Jorge Monteiro e de D. Maria Teresa de Gusmão. Recebeu no baptismo o nome de João António, em homenagem a seu padrinho João António de Sá Pereira, então governador e capitão-general deste arquipélago, e que depois foi barão de Alverca. São-nos completamente desconhecidas as circunstancias da sua vida até ao ano de 1791, em que recebeu na Universidade de Coimbra o grau de doutor na faculdade de filosofia, sendo pouco depois ali admitido como lente da cadeira de mineralogia. Tendo recebido o capelo em tão verdes anos e dando sempre em toda a sua vida provas de um brilhantíssimo talento e do mais devotado amor ao trabalho, devemos acreditar que houvesse sido um estudante distintíssimo desde os bancos das escolas primarias.
O Dr. João António Monteiro exerceu o magistério universitário com notável distinção, sendo o seu nome colocado a par dos de José Bonifácio de Andrade e Silva e Manuel José Barjona, que, pela nova orientação que deram ao ensino das ciências naturais e pela profundeza do seu saber, são considerados como verdadeiros ornamentos do nosso primeiro estabelecimento de instrução.
Pouco tempo se demorou o Dr. Monteiro na carreira do magistério, desejoso de alargar no estrangeiro a esfera dos seus conhecimentos, dedicando-se ali inteiramente a profundos estudos, que lhe granjearam uma grande reputação em todos os centros científicos da Europa. Saiu do país em 1804, empreendendo uma longa viagem cientifica por diversos países europeus, e não mais voltou a Portugal, por motivos que hoje de todo se ignoram.
Por decreto de 11 de Maio de 1804, foi nomeado professor duma das cadeiras do laboratório químico de Lisboa, há pouco criado, lugar que nos parece não chegou a exercer, e pouco depois comissionado pelo nosso governo para fazer a viagem cientifica a que nos referimos, tendo-lhe a respectiva carta regia garantido a antiguidade, ordenados e mais prerrogativas, como se estivesse na regência efectiva da sua cadeira na Universidade.
Uma vez do estrangeiro, inteiramente se dedicou aos seus trabalhos científicos, de que são testemunho os importantes escritos que deixou dispersos em muitas revistas e publicações, estrangeiras, que não chegaram a ser reunidos em volumes, além de vários opúsculos avulsos.
2Merecimento científico e morte
Acerca do valor dos trabalhos do Dr. Monteiro e do seu merecimento cientifico, vamos transcrever alguns períodos do que a seu respeito disse o Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho na sua Memoria histórica da faculdade de philosophia da Universidade de Coimbra, publicada em 1872:
«Este sábio português honra a pátria pela vastidão dos seus conhecimentos, principalmente em mineralogia. Principiando os seus trabalhos em Paris, onde publicou interessantes memorias, dirigiu-se depois para a Alemanha a frequentar as lições do célebre Werner, em Freyberg. Aqui distinguiu-se por importantes estudos scientificos em cristallographia e historia natural dos mineraes, a ponto de merecer honrosas citações de celebres mineralogistas allemães e francezes.
«Hauy e Binet, em uma sessão da sociedade philomatica em Paris apresentaram um relatório muito lisonjeiro acerca d'uma memória d'este illustre madeirense, a qual tinha por objecto a determinação directa duma nova variedade da forma christalina do carbonato de cal e as notáveis propriedades que elle manifesta.
«Hauy, no seu tratado de mineralogia e em muitas memórias, cita sempre com o maior louvor as observações e os trabalhos do Dr. Monteiro. A memória sobre o «arsenico sulphurato vermelho» publicada pelo eminente mineralogista francez nos Annaes do Museu de Historia Natural, é toda fundada em comunicações do nosso sàbio compatriota.
A memória sobre muitas variedades novas do topasio, publicada pelo Dr. João Antonio Monteiro na collecção da academia real das sciencias da Baviera, grangeou-lhe o diploma de sócio de tão ilustre corporação scientifica. «Schrauf, no seu tratado de mineralogia physica, Friedrich Mohs, nos seus princípios fundamentaes de mineralogia, Haiduiger, no seu manual de mineralogia, e muitos outros dos mais respeitàveis e auctorisados escriptores da Allemanha, alludem em termos honrosos aos trabalhos do Dr. Monteiro e do seu illustre contemporâneo José Bonifacio d'Andrade e Silva».
Além dos trabalhos científicos que ficam citados, o Diccionario Bibliographico de Inocencio faz menção da Memória sobre o fluato de cal do Vesuvio e duma tradução do celebre trabalho do Dr. Jenner sobre a vacina, publicada em Lisboa em 1803, não contando com inúmeros escritos que deixou insertos nas publicações privativas de muitas sociedades cientificas estrangeiras.
O Dr. João Antonio Monteiro, um dos mais ilustres filhos desta terra, morreu em Paris em 1834, contando 65 anos de idade.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 06-
João António Monteiro nasceu no Funchal.
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João António Monteiro doutorou-se em Filosofia em Coimbra.
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Foi publicada em Lisboa a tradução, pelo Dr. João António Monteiro, da obra de Jenner sobre a vacinação.
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O Dr. João António Monteiro partiu de Portugal numa viagem científica pela Europa e nunca regressou.
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João António Monteiro foi nomeado professor do novo laboratório químico de Lisboa.
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O Dr. João António Monteiro morreu em Paris aos 65 anos.
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Simões de Carvalho publicou a sua história da Faculdade de Filosofia de Coimbra, na qual elogiou João António Monteiro.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Alemanha
Germany. País onde prosseguiu os estudos de mineralogia.
A Alemanha acolheu casas exportadoras de bordados a partir de cerca de 1890 e foi um mercado para o bordado da Madeira. Foi também o país onde o Dr. João António Monteiro estudou mineralogia, onde Carlos Olavo esteve prisioneiro de guerra e onde morreu o 2.º Conde de Tôrre Bela.
- Funchal
Local de nascimento de Monteiro.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde se situava o laboratório químico para o qual foi nomeado professor e onde foi publicada a sua tradução da obra de Jenner.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Paris
France. Cidade onde Monteiro iniciou o seu trabalho no estrangeiro e onde morreu.
Capital francesa onde Franco de Sousa se estabeleceu e pintou «Ar livre», e onde Juvenal Honório de Ornelas se doutorou em Medicina em 1834. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara estudou ali e conheceu Loyola; o Barão de Ornelas formou-se, exerceu a profissão e morreu na cidade.
- Universidade de Coimbra
Portugal. Instituição onde Monteiro se doutorou e ensinou Mineralogia.
A Universidade de Coimbra, em Portugal Continental, recebeu apoio da Madeira através de dízimos e foi frequentada por muitos madeirenses. Vários formaram-se ali, sobretudo em Direito, e outros, como António da Gama e Vitúrio Lopes Rocha, também ali lecionaram. Júlio Augusto Henriques ocupou a sua cátedra de Botânica.
- Vesúvio
Italy. Origem do fluoreto de cálcio estudado numa das suas memórias.
Origem do fluoreto de cálcio estudado numa das suas memórias.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 16- João António Monteiro1769–1834
Mineralogista madeirense e professor em Coimbra que trabalhou no estrangeiro a partir de 1804 e morreu em Paris; é o biografado nesta entrada.
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Governador e capitão-general da Madeira, mais tarde Barão de Alverca, e padrinho de quem Monteiro recebeu o nome.
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Coautor, com Haüy, de um parecer favorável apresentado à Sociedade Filomática de Paris sobre a memória de Monteiro acerca do carbonato de cálcio.
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Mineralogista que se referiu elogiosamente ao trabalho de Monteiro.
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Mineralogista que citou Monteiro no seu manual de mineralogia.
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Mineralogista francês que elogiou e citou o trabalho de Monteiro, incluindo uma memória sobre o sulfureto vermelho de arsénio baseada nas suas comunicações.
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Autor do Dicionário Bibliográfico, que enumera outras obras de Monteiro.
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Médico cuja obra sobre a vacinação Monteiro traduziu, tendo a tradução sido publicada em Lisboa em 1803.
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Autor da história da Faculdade de Filosofia de Coimbra publicada em 1872, citada a propósito dos méritos de Monteiro.
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Naturalista de Coimbra colocado a par de Monteiro pelo seu contributo para a renovação do ensino das ciências.
+ 6 mais
- José Vicente Barbosa du Bocage1823–1907
Zoólogo madeirense mencionado, a par de Monteiro, como um dos dois distintos naturalistas madeirenses.
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Professor de ciências naturais em Coimbra colocado a par de Monteiro.
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Mãe de João António Monteiro.
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Rico comerciante, pai de João António Monteiro.
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Mineralogista de língua alemã que citou Monteiro no seu tratado de mineralogia física.
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Mineralogista célebre cujas aulas Monteiro frequentou em Freiberg.