Mau Olhado 1A crença no mau olhado
Mau Olhado
Descreve a crença madeirense no mau-olhado, o suposto poder de certas pessoas para causar doenças em crianças, no gado e nas árvores, e para afetar alimentos com o olhar, bem como a cura com azeite e água praticada por curandeiros populares e os amuletos de proteção.
1A crença no mau olhado
Ainda hoje é crença vulgar não só nos campos, mas também no Funchal, que há indivíduos dotados do poder de causar doença por meio dos órgãos visuais. Se uma criança começa a emmagrecer sem causa conhecida, ou se o porco, a vaca, a ovelha ou a cabra adoecem sem ser de moléstia de fácil verificação, há sempre quem atribua esses males ao mau olhado, já que não é facil achar para eles melhor explicação. A arvore que dá bons frutos pode deixar de dá-los em virtude de mau olhado, e até os nossos alimentos não estão isentos dos sortilégios daqueles a quem o demónio concedeu o poder de fazer o mal, sem que a justiça lhes possa exigir responsabilidades.
Ninguém, segundo os crentes, pode fugir do mau olhado, mas curá-lo é coisa fácil, e nem mesmo se exige a presença do doente para que o tratamento dê bom resultado. Basta uma peça do vestuário da pessoa atacada, ou outro qualquer objecto que tocasse nesta, para que a curandeira proceda ao tratamento, com absoluta certeza de êxito.
2Verificação e tratamento
Para verificar se uma pessoa está afectada de mau olhado, deita-se um pingo de azeite em agua; se o azeite alastra, é porque há o mau olhado, se se conserva unido, é porque ele não existe.
Reconhecida a existência do mau olhado, repete-se a experiência tantas vezes quantas forem necessárias para se conseguir que o azeite não alastre ao cair na agua. Logo que se alcança este resultado, está o doente curado. O tratamento pode durar ás vezes oito dias, não devendo a agua que serve num dia, ser utilizada nas experiências imediatas.
A curandeira profere as palavras seguintes, de cada vez que procede ao tratamento: Eu te curo em nome de Deus e da Virgem Maria; se te deram (o mau olhado) no comer, ou no beber, ou no rir, ou no zombar, ou na tua formosura, ou no teu andar, quem to deu nunca mais to torne a dar, e saia deste corpo e vá para o mar.
3Persistência da abusão e amuletos
A crença no mau olhado é uma das poucas abusões que o progresso e a civilização não conseguiram destruir ainda entre nós. Tão arraigada está ela no animo das pessoas simples dos nossos campos, que não há conselhos nem advertências que as façam reconhecer o que há de ridículo e burlesco nos meios de que se servem as curandeiras para anular os supostos malefícios causados por certas criaturas aos seus semelhantes.
Os chifres que se vêm frequentes vezes sobre os chiqueiros, são colocados aí pelos donos dos suinos para obstar a que estes sejam influenciados pelo mau olhado ou pelo ar mau! Nos barcos de pesca também se guardam por vezes algumas pontas de boi para que o mau olhado não afugente o peixe, especialmente o atum e espécies vizinhas.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 01- Funchal
Diz-se que a crença no mau-olhado persiste até na cidade do Funchal, e não apenas nas zonas rurais.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.