Deportados Politicos 1Os presos de 1844
Deportados Politicos
Descreve dois grupos de presos políticos deportados para a Madeira: os insurgentes da revolta de Torres Vedras de 1844 contra Costa Cabral e 289 monárquicos enviados em 1919 após a revolução monárquica, oito dos quais fugiram para Las Palmas numa lancha a motor.
1Os presos de 1844
Por ocasião da revolta que se deu em Tôrres Vedras em 4 de Fevereiro de 1844, com o fim de fazer cair o governo de Costa Cabral, foram presos e enviados para a Madeira 23 insurgentes, entre os quais figuravam os advogados António Maria Ribeiro da Costa Holtreman e Leonel Tavares Cabral, o juiz do Tribunal do Comercio Lourenço de Oliveira Grijó, o cónego Dr. Manuel Joaquim Cardoso Castelo Branco e oito oficiais do exército.
Destes presos políticos, que vieram no brigue Douro, que chegou ao Funchal a 20 de Abril, e deram entrada na fortaleza do ilhéu; os restantes vieram no cuter Andorinha, que chegou aqui a 28 do mesmo mês, e recolheram á fortaleza do Pico. Foram todos postos em liberdade logo que chegou á Madeira a noticia oficiosa do malogro da revolução de Torres Vedras.
2Os presos de 1919
Em 1919, depois da revolução monárquica dos princípios deste ano, vieram para o Funchal novos prisioneiros políticos, que chegaram aqui no vapor Africa, da Empresa Nacional de Navegação, o qual fora arvorado em transporte de guerra. Esses prisioneiros, em numero de 289, que vinham acompanhados de uma fôrça de marinha, desembarcaram no dia 8 de Maio, três dias depois da chegada do Africa, sendo instalados no Lazareto de Gonçalo Aires. Entre os prisioneiros vinham o antigo ministro João de Azevedo Coutinho, o ex-coronel João de Almeida, o conde de Sucena, o conde de Arrochela, o visconde de Siqueira e João Moreira de Almeida, tendo ficado no Funchal uma força de 30 praças da armada e 1 sargento para guardar o Lazareto, e vindo juntar-se a essa força, também para o mesmo fim, um destacamento de infantaria, comandada por um alferes. Por determinação do capitão do porto, foi proibida a passagem e a permanência de quaisquer embarcações na zona marítima limitada pela fortaleza de S. Tiago e o cabo Garajau.
Não obstante estas precauções, deu-se no dia 3 de Junho pelo desaparecimento de 8 prisioneiros, entre os quais o conde de Sucena, sabendo-se depois que todos eles tinham chegado a Las Palmas, na lancha-automovel Glafiberta, pertencente ao sportsman Humberto dos Passos, que foi quem preparou a evasão. Sôbre o modo como se deu a fuga, lemos num jornal o seguinte: “Numa bela tarde, quasi todos os presos políticos internados no Lazareto do Funchal saíram do edifício com o pretexto de arejar e juntaram-se na nesga da praia que lhe fica imediatamente inferior. Os guardas limitaram-se a vigia-los das janelas do Lazareto. Durante momentos cantaram, retoiçaram, deram vivas, e quando a algazarra atingia o seu auge e os guardas estavam distraídos com o pagode, aproximou-se da praia um bote destacado da Glafiberta e recolheu sem pressa, os 8 presos... Horas depois, a lancha-automovel, rebocada pelo Milano, da casa Blandy (que ignorava que espécie de serviço se pedira ao seu rebocador), singrou em Direcção ás Desertas, e mais tarde aproou ao sul, caminho das Canárias”.
Com os oito prisioneiros foi também o proprietário da Glafiberta, que pedira dias antes ao capitão do porto autorização para fazer com o seu barco uma viagem á roda da ilha.
Dos restantes prisioneiros que haviam recolhido ao Lazareto, 7 foram postos em liberdade em virtude de um telegrama recebido do ministro da guerra em 13 de Maio, tendo todos os demais saído para Lisboa em diferentes paquetes que tocaram no Funchal desde Junho até Agosto. O vapor Moçambique conduziu os prisioneiros, os últimos dos 280 que tinham desembarcado no Funchal em 8 de Maio.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 02-
Eclodiu em Torres Vedras uma revolta contra o governo de Costa Cabral, que levou a deportações para a Madeira.
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Presos políticos da revolta de Torres Vedras chegaram ao Funchal a bordo do brigue Douro, em 20 de abril, e do cúter Andorinha, em 28 de abril.
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Cerca de 289 presos políticos da revolta monárquica, entre eles Salema Vaz, desembarcaram no Funchal vindos no vapor Africa e foram internados no lazareto de Gonçalo Aires.
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Sete deportados políticos detidos na Madeira foram libertados por telegrama do ministro da Guerra.
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Os restantes deportados políticos na Madeira foram enviados de navio para Lisboa entre junho e agosto.
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Foi descoberta a fuga de oito deportados políticos, entre eles o Conde de Sucena, da Madeira para Las Palmas.
Lugar
Lugares mencionados · 11No estrangeiro
- Cabo Garajau
Santa Cruz. Outro limite da zona marítima de circulação restrita em 1919.
Cabo que marca o limite oriental da baía do Funchal e que os navios vindos de leste contornam ao entrar no Funchal. É um dos dois cabos da Madeira e recebeu o nome dos garajaus que os primeiros exploradores ali encontraram. É um contraforte meridional e miradouro da ilha, um local onde cresce Lotus macranthus e, em 1919, um limite da zona marítima restrita.
- Canárias
Spain. Destino da lancha utilizada na fuga.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Desertas
Santa Cruz. Direção inicialmente tomada pela lancha utilizada na fuga.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Fortaleza de São Tiago
Funchal. Um dos limites da zona marítima interditada às embarcações enquanto os prisioneiros estiveram detidos.
Fortaleza na frente marítima do Funchal, no extremo oriental da praia de desembarque, datada de 1614, durante o domínio espanhol, e reconstruída em 1767; albergou mais tarde uma bataria de artilharia de montanha. Ali foram detidos presos em 1823 e 1828, hasteou-se a bandeira republicana em 7 de outubro e a fortaleza disparou durante o bombardeamento do Funchal em 1916.
- Fortaleza do Ilhéu
Funchal. Fortaleza onde ficaram detidos os prisioneiros chegados em 1844 a bordo do brigue Douro.
A Fortaleza do Ilhéu é uma fortaleza do século XVII no Funchal. Em 1844, recebeu os presos políticos do brigue Douro e disparou sobre a barca Tybumia, que fugia. Forster afirmou que os navios de Cook a bombardearam em 1768, e planeou-se decorá-la com fogo de artifício e iluminações para o Quinto Centenário.
- Fortaleza do Pico
Funchal. Fortaleza onde ficaram detidos os prisioneiros chegados em 1844 a bordo do cúter Andorinha.
Fortaleza acima do Funchal, na freguesia de São Pedro, começada durante o domínio filipino (espanhol) e concluída após a Restauração, que contém a capela profanada de São João. Foi estabelecida como marco dos limites da cidade em 1809 e serviu durante muito tempo como local de reclusão: ali estiveram detidos o governador deposto em 1668, 16 presos da Alçada de 1828 e os presos trazidos do cúter Andorinha em 1844. Foi cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para servir de cadeia, mas o custo dessa utilização levou à transferência do projeto para São Lázaro.
- Funchal
Porto onde desembarcaram os deportados em 1844 e 1919.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Las Palmas
Spain. Porto das Canárias a que chegaram os oito prisioneiros evadidos.
Las Palmas é uma cidade e porto das Canárias. A primeira equipa desportiva madeirense a jogar no estrangeiro deslocou-se ali em 1901, e a estação de telegrafia sem fios do Funchal contactou a estação da cidade durante os seus primeiros ensaios. Foi promovida como estância de saúde rival ou superior à Madeira, e chegaram ali oito presos políticos evadidos.
- Lazareto de Gonçalo Aires
Funchal. Edifício de quarentena onde foram internados os prisioneiros monárquicos em 1919.
O Lazareto de Gonçalo Aires é um edifício de quarentena na foz da Ribeira de Gonçalo Aires, cuja construção foi decretada em 1849. Foi convertido em hospital de isolamento para doentes com peste e saqueado por populares em 7 de janeiro de 1906. Mais tarde, serviu para internar deportados políticos, incluindo os de 1919, e residentes alemães durante a Grande Guerra.
- Lisboa
Portugal. Local para onde foram enviados os restantes prisioneiros.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Torres Vedras
Portugal. Cidade portuguesa onde eclodiu a revolta de fevereiro de 1844.
Torres Vedras é uma cidade de Portugal Continental. Ali eclodiu a revolta de fevereiro de 1844, e Luís da Silva Mousinho de Albuquerque recebeu um ferimento mortal num confronto. A nascente de Fonte Nova, nas proximidades, foi citada como fonte de água continental comparável à de São Roque.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12-
Advogado deportado para a Madeira em 1844 após a revolta de Torres Vedras.
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Preso monárquico detido no Funchal em 1919.
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Preso monárquico de 1919 que fugiu do lazareto do Funchal para Las Palmas.
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Chefe do governo português que a revolta de Torres Vedras de 1844 procurou derrubar.
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Desportista e proprietário da lancha Glafiberta, que organizou a fuga de oito presos em 1919 e partiu com eles.
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Antigo ministro entre os presos monárquicos detidos no Funchal em 1919.
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Antigo coronel entre os presos monárquicos detidos no Funchal em 1919.
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Preso monárquico detido no Funchal em 1919.
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Advogado deportado para a Madeira em 1844 após a revolta de Torres Vedras.
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Juiz do Tribunal do Comércio deportado para a Madeira em 1844.
+ 2 mais
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Cónego deportado para a Madeira em 1844 após a revolta de Torres Vedras.
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Preso monárquico detido no Funchal em 1919.