Vimeiro 1O vimeiro e seus usos
Vimeiro
O vimeiro madeirense, provável híbrido de Salix alba e S. fragilis, cujos ramos flexíveis abastecem a indústria da cestaria da ilha. O texto descreve o seu cultivo, a exportação de vime em bruto e trabalhado e as causas do declínio da indústria por volta de 1921.
1O vimeiro e seus usos
O vimeiro da Madeira parece ser o produto do cruzamento da salix alba com a S. fragilis. É um arbusto ou pequena árvore com os ramos compridos e flexíveis, e as folhas lanceoladas, as adultas, glabras, as novas, um tanto assetinadas. Só existem na Madeira indivíduos femininos, mas estes são extremamente abundantes e multiplicam-se de estaca com uma facilidade extrema.
Os ramos mais longos do vimeiro utilizam-se para o fabrico de grande numero de moveis e utensílios, tais como canapés, cadeiras, mesas, carros, cestos, etc., os mais curtos para ligamentos e vencelhos, assim como para algumas obras miúdas que se fabricam na ilha.
Em 1912, foram exportados para o estrangeiro e Lisboa 265:919 quilogramas de vimes em obra, e só para o estrangeiro, 255:390 quilogramas de vimes em bruto, tendo sido a Inglaterra, as Canárias e o Cabo da Boa Esperança os principais países importadores dos vimes não manufacturados.
2A indústria da verga
A indústria dos artefactos de verga, que parece ter começado na freguesia da Camacha por 1850, está hoje decadente na Madeira, segundo nos informa o inteligente industrial o Sr. José Maria Teixeira, ao passo que se desenvolve noutros países, e principalmente na África do Sul, para onde a ilha exporta os seus vimes. O encarecimento da matéria prima, que obsta a que alguns industriais que lutam com falta de capitais a adquiram na época própria, a saída para o estrangeiro de muitos operários que se empregavam na referida indústria, enquanto outros se dedicam na ilha a outros serviços mais lucrativos, os fretes mais pesados que oneram os vimes em obra, em razão destes ocuparem maior espaço nos porões dos navios, e os direitos e impostos locais que oneram mais os artefactos de verga do que a matéria prima, são, no entender daquele esclarecido industrial, as principais causas da referida industria ter perdido uma grande parte da sua antiga importância.
A Madeira produz 700 a 800 toneladas de vimes anualmente, saindo talvez metade desta produção para fora da ilha. No Cabo da Boa Esperança, outrora importante mercado consumidor dos artefactos de verga da Madeira, fabricam-se hoje muitos dos mesmos artefactos com vimes importados da nossa ilha, o mesmo acontecendo no Brasil. A Inglaterra é o país que importa actualmente grandes quantidades da obra de verga fabricada na Madeira, recebendo também, segundo nos informam, grandes porções de vimes em bruto (1921).
A poda do vimeiro executa-se desde Janeiro até Março, e os vimes destinados a obras são reunidos em feixes em seguida á colheita, depois do que é uso deixar permanecer a parte inferior dos mesmos feixes mergulhada em água, até que comece a rebentação. Iniciada esta, são os vimes descascados, devendo haver o cuidado de cortar a parte que esteve mergulhada na água.
Uma boa parte da obra de verga produzida na ilha recomenda-se pelo engenho, desvelo e solidez da sua execução, qualidades estas que a tornam bastante apreciada tanto de nacionais como de estrangeiros, denotando ao mesmo tempo muita habilidade e gosto da parte dos artistas madeirenses. A Boaventura e a Camacha são as principais localidades da produção do vime, sendo desta última localidade que sai a maior parte da obra de verga que é exportada ou vendida no Funchal.
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Anos mencionados · 03Lugar
Lugares mencionados · 09No estrangeiro
- África do Sul
South Africa. A sua indústria de cestaria de vime, em crescimento, era abastecida com vime madeirense.
A África do Sul é referida como o lugar onde o príncipe Eugénio Napoleão morreu na Guerra Zulu. Foi o ponto terminal do cabo da Eastern Telegraph Company. Importava vime e vergas da Madeira antes de desenvolver a sua própria indústria de cestaria, e emigrantes ali residentes ofereceram o relógio do Estreito da Calheta.
- Boaventura
São Vicente. Uma das principais localidades produtoras de vime.
Freguesia da costa norte do concelho de São Vicente, uma das três freguesias que compõem o seu julgado e concelho. Nas suas serras encontra-se o pau-branco, e a freguesia sofreu danos nas cheias de 1895. Ao largo da sua costa situam-se os ilhéus da Boaventura, também chamados ilhéu Porco e ilhéu Vermelho.
- Brasil
Brazil. Produz cestaria com vime madeirense.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Cabo da Boa Esperança
South Africa. Antigo mercado da cestaria de vime madeirense, que passou a fabricar os seus próprios artigos com vime importado.
O Cabo da Boa Esperança é a região de origem de várias plantas encontradas na Madeira, como Agapanthus umbellatus. Foi outrora um mercado para os artigos de vime madeirenses, mas passou a produzi-los com vergas importadas. Foi também o destino de várias viagens notáveis que fizeram escala na Madeira.
- Camacha
Santa Cruz. Freguesia onde a cestaria de vime começou por volta de 1850 e principal origem do vime exportado.
A Camacha é uma freguesia situada nas terras altas acima do Caniço, no concelho de Santa Cruz, fundada em 1676 com sede na Capela de São Lourenço. O Elucidário aborda a sua igreja, o seu papel na invasão miguelista de 1828, as quintas, as levadas, a Casa de Abrigo do Poiso, a romaria do Pentecostes, as saias acolchoadas das mulheres, as plantas e os jardins, e a sua célebre indústria de vimes, iniciada por Hinton.
- Canárias
Spain. Importadoras de vime em bruto em 1912.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Funchal
Local onde é vendida grande parte da cestaria de vime da Camacha.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Inglaterra
United Kingdom. Principal importador de vime madeirense, em bruto e trabalhado.
A Inglaterra surge no Elucidário como o primeiro grande mercado dos bordados da Madeira e o principal importador dos artigos de vime madeirenses. Era também a origem da maior parte da manteiga consumida no Funchal no início do século XIX. Foi um dos principais refúgios dos emigrados liberais que fugiam à perseguição miguelista, e vários madeirenses estudaram ou exerceram funções diplomáticas no país.
- Lisboa
Portugal. Destino das exportações de artigos de vime em 1912.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01-
Industrial madeirense da cestaria de vime que informou o Elucidário sobre as causas do declínio da indústria.